Corresp. em família

Carta para os filhos Antonio, Rosirano, Chiquinha e Assis…(em Goiânia-Go)

Tupiratins, 02/09/1982

Deus os abençoem!

Saúde, paz e muitas felicidades, são meus votos por vocês. Nós estamos como sempre. Deixei de fumar já faz dez dias, não quero mais fumar. Melhor é a saúde, não o tóxico, o vício. Acho que aos poucos vou melhorando, pois tenho muitas coisas ainda para realizar. Coragem, paciência e silêncio, são necessários para uma vida feliz. Se vocês não tivessem esses dons para levar frente a frente as dificuldades, estavam como muitos que não querem nada. O êrro, a gente evita até em pensamento. Rosirano, para tudo Deus deixou o tempo. A Faculdade não foi difícil para você, assim é o seu futuro.O progresso da vida chega na vez certa, não precisa preocupar.
Alceu vai mudar por estes dias. Adriano só fala de irmos embora pra perto de vocês. Lugar bom pra velho ficar é aqui mesmo.Esta correria da cidade grande só para novo. Até outubro estarei indo por aí. Antonio, tenho certeza de que as despesas de colégio aí são grandes. Você fica em silêncio é para não me preocupar.
Abraços da velha mãe: Rosa C. Alencar.

O mundo de Rosinha

22/07/2009

Rosinha, minha mãe, simboliza a resistência da mulher nordestina, curtida no sol, na chuva, na luta constante contra as intempéries. Resignação e força pra lutar era a sua marca. A esperança jamais morria. Em momento algum reclamava da vida. Até o casamento com o viúvo de uma tia foi arranjado com a melhor das intenções, amparar os sobrinhos que ficaram órfãos de mãe. No dia do casamento, Rosinha recebeu um presente de grego, tornando-se madastra de oito sobrinhos, continuando a mesma lida da casa paterna, onde cozinhar, lavar, cuidar de crianças, costurar e passar roupas era rotina, além dos serviços extras, socar arroz com mão de pilão, ralar o milho e a mandioca, preparar a massa e fazer a farinha. Ano após ano foi tendo os próprios filhos, redobrando cuidados com a saúde, alimentação, educação, calçados e roupas.

A dificuldade era um desafio constante. Como primogênita, ajudara a cuidar dos irmãos menores. Costureira por necessidade, desde pequena assumira tarefas importantes na família paterna. Ainda não existiam as comodidades dos alimentos industrializados. O café adquirido nas vendas em grão natural devia ser torrado e moído, tudo manualmente, na torradeira e no moinho de ferro marca Mimoso. O sal grosso para consumo doméstico tinha que ser triturado no pilão, querosene era combustível doméstico usado nas lamparinas com pavio de algodão, o arroz era limpo no pilão após ser socado exaustivamente, o leite direto das tetas das vacas, a água da cisterna puxada no sarilho, o sabão caseiro feito com mistura de pequi, o ferro de passar roupas aquecido a brasa, o fogão a lenha, a privada de buraco nos fundos do quintal, esse o mundo em que Rosinha nos criou.

Naqueles tempos, os amassos, os beijos na boca e os jogos de sedução não eram banalizados pelos programas televisivos que ainda não existiam. As vergonhas da mulher eram demonstradas no vestir, na linguagem respeitosa, nas prendas domésticas da cozinha, da costura e do bordado. O namoro era vigiado de perto pelos pais e pelos irmãos. O noivado era um período bem curto. Nada de abraços, de beijos, de intimidades, tudo era acertado por bilhetes e cartas, com a cumplicidade dos mensageiros de confiança. Os pais não costumavam beijar ou abraçar os seus filhos, nem os cônjuges se beijavam publicamente. Rosinha aprendeu a ler, escrever e fazer contas na escola do vilarejo cearense com o método da tabuada cantada.

As refeições eram feitas em família, ao redor da mesa. O pai sempre se servia em primeiro lugar. Nada de iguarias, de cardápios variados. O arroz e o feijão eram o básico. Ninguém reclamava, pois tudo era igual. Só existiam refrigeradores nas grandes cidades. A carne bovina era consumida fresca apenas quando se fazia uma matultagem, a saída era conservar a carne seca ao sol e salgada. O cardápio variava de acordo com a necessidade e a temporada, época dos pequis, dos cajás, das mangas, dos buritis e dos muricis. Pratos de primeira era o feijão verde, o pirão de farinha de mandioca com carne seca, a farofa com carne, a paçoca de carne de sol, a carne com mandioca, o baião de dois (arroz casado com feijão).

Parafraseando o apóstolo Paulo, dona Rosa foi uma combatente que combateu o bom combate. Lutou e venceu, como sempre afirmava, “não existe vitória sem lutas”. Corajosa, determinada, os oito filhos e outro tanto de enteados, dezesseis ao todo, seguiram a trilha do bem, constituíram suas famílias com dignidade. Não teve o desprazer de ver filhos envolvidos com drogas ou pelos caminhos do crime. Todos se casaram, geraram filhos, netos e bisnetos, dos quais tanto se orgulhava.

Rosinha era guerreira e não dava o braço a torcer ante os imprevistos da vida. Nas horas mais difíceis deu o exemplo de fé, coragem e determinação. Todos os anos o Rio Tocantins transbordava no período das enchentes. Desde que papai construiu a casa, as maiores enchentes chegavam aos pés das estacas no fundo do quintal, mas dali a água não passava. Mas a enchente de 80 avançou como nunca. Chegamos a circular de barco por cima dos telhados. As casas desmoronavam uma após outra, o barulho das paredes e tetos despencando nas águas doía fundo na alma, sinalizando que mais e mais famílias ficariam desabrigadas. A nossa casa caiu, mas Rosinha permaneceu de pé. Assim que as águas foram baixando, os desabrigados corriam atrás do que restou. Portas, janelas, madeiras, tudo encoberto pela lama, iam sendo recolhidos para o trabalho da reconstrução. Espírito indomável, ela recomeçou toda a faina a partir de um quiosque de madeira abandonado, limpando toda sujeira e instalando suas tralhas de cozinha. Dali ela conseguiu contratar pedreiro, servente, adquiriu tudo o que faltava, madeira, porta, portais e janelas, levantando a casa onde viveu o resto dos seus dias.

Rosinha é minha inspiração constante, principalmente nas dificuldades, quando penso em reclamar de alguma coisa, a sua imagem surge em minha mente, a lembrança de sua figura indomável, do seu mundo tão difícil, onde se fez forte e venceu. Então vou levando em frente, contando com um poderoso guia recém-desencarnado, mas tão presente, minha mãe Rosinha, uma guerreira anônima impregnada das essências sagradas que fazem a vida acontecer.

Francisco de Assis Alencar é coronel da PM R

(http://pmvida.blogspot.com)

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