Hoje, em nossa sociedade, a violência nos envolve todo o tempo, nas ruas, na mídia e, muitas vezes, dentro de nossos lares. O estudo do Evangelho segundo o espiritismo, item “Caridade para com os Criminosos”, provoca as mais variadas reações. Quando pensamos no perdão e na caridade para com os criminosos, nos encontramos muitas vezes a dizer para nós mesmos: perdoar, ser caridoso… nunca! Quando encontramos criaturas assim, ou nós mesmos agimos assim, podemos ter certeza de que o alerta de Jesus ainda não encontrou eco em nossos espíritos.
Sempre que a sociedade se abala diante de um crime bárbaro, clama-se por revisões na lei, inclusive com a instituição da pena de morte para tais casos. Cabe refletir, à luz da Doutrina Espírita, sobre os crimes e sobre a lei. O mandamento maior da lei divina inclui a caridade para com os criminosos, por mais difícil que possa parecer ter este sentimento diante da barbárie. Perante a Lei de Deus somos todos irmãos, por mais que repugne a alguns tal ideia.
Elisabeth de França, espírito, alerta-nos sobre a oportunidade que Deus nos concede de termos entre nós grandes criminosos, para que, com o exemplo que eles nos dão, possamos compreender o verdadeiro sentido da reencarnação: progresso, iluminação, felicidade. Auxiliemos com nossas preces, para que um dia não tenhamos mais que precisar destes tristes exemplos e gozar de um mundo mais pacífico. E à medida que compreendermos cada vez mais a caridade, a ideia de perdoar se tornará mais fácil ao nosso espírito. Comecemos a ver a criatura que agride como uma criatura que está pedindo socorro, mas que deve também saber que terá um dia de corrigir estes desacertos. Não mais a ideia do pecado que gera a ideia de punição, que não permite que eu me veja em condições de reparar o erro e que devo sofrer, mas sim a idéia de responsabilidade, que me faz senhor dos meus créditos e débitos e responsável em corrigir as faltas. .
Quanto mais o nosso conceito de caridade se amplia, rompendo as barreiras da esmola que damos, alcançando o aperto de mão, o abraço, a palavra amiga, ou mesmo o silêncio, começamos a perceber a caridade praticada por Jesus. Ele não possuía bens para distribuir, mas possuía a palavra que elevava. Não possuía os recursos materiais, mas possuía os ouvidos do Bom Pastor, que percebe a ovelha perdida ao longe. Conseguia com o olhar aliviar as dores e entender os sofrimentos mais profundos daquele povo, que ainda assim, muitas vezes, não o compreendia. É nesse sentido de caridade, que vê o homem como um ser integral, que precisamos começar a praticar.
O amor é o sentimento de piedade, o pensamento sem ódio, o desejo que desperte para o bem e que lhe sejam oferecidas oportunidades de mudança. Não pretende este sentimento que o criminoso permaneça no convívio social, mas que, afastado, receba orientações para a reformulação de seus conceitos de vida. A lei humana deve cumprir-se, embora reconheçamos que, muitas vezes, ela não atende aos objetivos de ressocialização do indivíduo. Que essas mesmas leis sejam revistas, se necessário, não perdendo de vista que os seus objetivos devem acompanhar as mudanças sociais e visar, sempre, a recuperação da criatura que buscou a permanência no mal. E, que a pena de morte não seja desejada, pois é um atraso social e não resolve o problema da criminalidade. Teremos, apenas, mais um espírito revoltado, livre do corpo, desejoso de vingança e mais tempo demorado no erro.
Na visão do próprio Chico Xavier, quando o amor se propagar no mundo com mais força que a violência, esta desaparecerá à maneira da treva quando a luz se lhe sobrepõe. Adverte-nos, contudo, que essa obra não prescindirá da autoridade humana, mas, na essência e na prática, exige a cooperação de nós todos
Francisco de Assis Alencar é coronel da reserva da PM (http://pmvida.blogspot.com)